A Bentley entrou na cultura tuner de Tóquio, e ninguém previu
Crewe deixa de jogar pelo seguro. A Bentley levou as novas Continental GT S e Supersports a Daikoku, Shibuya e à Tokyo Tower — num gesto que ninguém esperava.
A Bentley acaba de fazer aquilo que ninguém esperava. Uma marca construída sobre salões privados e antestreias para iniciados saiu para a Tóquio nocturna — para os parques de tuners, sob os ecrãs de néon de Shibuya, directamente para a cena JDM viva. O Tokyo Takeover para a estreia das novas Continental GT S e Supersports não foi uma operação corporativa. Foi um gesto cultural. A Tokyo Tower foi iluminada a verde Bentley, com o emblema projectado sobre a plataforma de observação. E os próprios carros foram enviados para os lugares onde habitualmente mandam Skyline GT-R e Lamborghini.
O movimento mais subtil de todo o programa é a Continental GT S vestida com uma livraria inspirada no Hayabusa Shinkansen, o comboio-bala mais rápido do Japão. Para a Bentley é um gesto invulgar, mas lógico. O Japão não valoriza apenas a velocidade — valoriza a disciplina da forma, a precisão de engenharia e o respeito pelo detalhe. A filosofia da Bentley é semelhante, só que expressa não através da cultura ferroviária, mas através da carroçaria, do habitáculo e dos acabamentos feitos à mão em Crewe.
Com a Supersports a marca jogou uma carta bem diferente, muito mais ousada. O carro com a inscrição «FULL SEND» é o mesmo Bentley «Pymkhana» com que Travis Pastrana rodou o filme FULL SEND. E foi precisamente esse carro que entrou na Daikoku Parking Area, um lugar há muito convertido em símbolo da cultura automóvel nocturna japonesa. Os habituais lá chamam-se Supra, RX-7, NSX, builds da Liberty Walk e outros projectos extremos. Um Bentley nesse ambiente parece quase um intruso. E é exactamente isso que faz o gesto resultar. Um coupé de ultra-luxo com luz verde por baixo do chassi tenta entrar não na vitrina de uma boutique, mas numa cultura automóvel viva.
A Supersports também tem com que impressionar até os veteranos mais experientes de Daikoku. É o Bentley mais radical dos últimos anos. Tracção traseira, V8 4.0 com turbos aumentados e escape de titânio Akrapovič, 657 cv, peso abaixo dos 2.000 kg — o Bentley mais leve em 85 anos. A produção está limitada a 500 unidades e já foram todas colocadas.
Depois veio Shibuya. Aquele cruzamento em que ecrãs LED gigantes passam publicidade do mundo inteiro. Nesses ecrãs a Bentley pôs uma montagem de FULL SEND enquanto a Continental GT S em librê Shinkansen passava por baixo. E à noite Mai Ikuzawa, directora criativa externa da Bentley e filha do lendário piloto Tetsu Ikuzawa, organizou um evento aberto em Shinjuku, para o qual afluíram superdesportivos, clássicos e projectos de tuning de toda Tóquio.
Para a própria Bentley isto é uma mudança de tom. A Continental GT foi sempre um carro para viagens longas e rápidas. Mas as novas GT S e Supersports têm de mostrar outra coisa — carácter de piloto. Aos clientes já não basta saber que o carro é caro e feito à mão. A marca tem de provar que é emocional, que tem lugar ao lado da cultura tuner e que interessa a um público que avalia carros pela presença, não pelo logótipo.
O mercado japonês é perfeito para esta experiência. Aqui coexistem em paralelo duas das culturas automóveis mais fortes do mundo: o amor tradicional pela arte impecável e uma poderosa cena JDM que cultua o detalhe, a individualidade e uma imagem reconhecível. Por isso a Bentley não se limitou a trazer dois coupés novos. A marca entrelaçou-os com o contexto local: Tokyo Tower, Daikoku, Shibuya, o Shinjuku cars and coffee — e a participação de Mai Ikuzawa acrescentou a tudo isso um código local.
O sentido comercial é o rejuvenescimento da percepção da marca. A Bentley já não quer continuar a ser um carro só para um clube fechado de proprietários, em que estatuto e configurador Mulliner decidem tudo. Numa época em que as marcas de luxo se comportam cada vez mais como casas de moda, o que importa são os eventos, as imagens, as colaborações culturais e a sensação de raridade. O Tokyo Takeover é exactamente isto — não mostrar um carro, mas torná-lo parte da cena urbana.
A concorrência nesta zona é variada. A Rolls-Royce quase não pisa o terreno da cultura de piloto. A Ferrari e a Lamborghini vivem no mundo dos supercarros. A Porsche sente-se em casa nos encontros de entusiastas. E a Toyota Century tenta transformar o luxo japonês contido numa marca global própria. A Bentley ocupa uma posição intermédia — mais desporto que a Rolls-Royce, mais luxo que a Porsche e mais tradição britânica que qualquer projecto japonês de ultra-luxo.
O Tokyo Takeover deixou claro o principal. A Bentley já não quer ser apenas impecavelmente cara. A marca tenta falar directamente com a cultura automóvel — e no Japão essa conversa correu particularmente bem. Aqui, mesmo um GT de ultra-luxo tem de provar que tem não apenas um preço, mas também um carácter.