A fábrica da Mercedes-Benz em Vitoria voltou a parar. E mais uma vez não por culpa própria. Na passada sexta-feira, a direção não teve outra alternativa senão cancelar o turno da noite — simplesmente não havia peças para montar veículos. A origem do problema estava bem para lá dos muros da fábrica: a logística falhou. Aos colaboradores foi dito sem rodeios — a produção é suspensa por uma falha na cadeia de abastecimento e a fábrica nada pode fazer.
Três áreas-chave foram atingidas em simultâneo: chaparia, montagem final e pintura. A causa — um novo gargalo no porto de Tânger. Segundo a Mercedes-Benz, paralisou o tráfego marítimo no Estreito de Gibraltar e fez ruir toda a cadeia logística. O fornecedor de cablagens foi o mais afetado.
No comunicado da fábrica, o diretor do site Bernd Krottmayer não nomeou diretamente, mas a alusão era inequívoca — falava da Kromberg & Schubert, um dos fornecedores-chave de cablagens. A paragem afetou quase todo o pessoal e os subcontratados. As únicas exceções foram as tarefas ligadas ao projeto VAN.EA e os trabalhos que mesmo não podiam esperar. E não é um pormenor: a Mercedes prepara o site para o próximo salto tecnológico, e qualquer pausa neste momento dói particularmente. Para Vitoria, não é o primeiro golpe recente.
Já em fevereiro a fábrica tinha parado por problemas de abastecimento. Na altura, a causa foi o mau tempo no Estreito de Gibraltar durante a tempestade invernal Leonardo. Foram afetadas as entregas de três empresas em simultâneo: Kromberg & Schubert, Forvia e Lear. A primeira ocupa-se das cablagens, as outras duas — dos bancos para furgões.
Dois dias depois daquela paragem, surgiu outro incidente — desta vez uma falha informática na sede da Mercedes-Benz em Estugarda, a cerca de 1430 km da fábrica espanhola. Para Vitoria foi uma lição incómoda: uma fábrica moderna não funciona apenas graças às máquinas e às pessoas na oficina. Depende de portos, servidores, fornecedores e rotas que atravessam vários países. Uma única falha em qualquer ponto — e tudo pára.
A situação parece especialmente preocupante face ao arranque da produção em série marcado para 12 de junho. Segundo a imprensa espanhola, o evento é preparado em grande escala — com a presença do responsável global da Mercedes-Benz Vans, Thomas Klein. E quanto mais próxima a data, mais cara fica cada hora perdida.
A fábrica está inserida numa cadeia extremamente complexa, em que um único atraso nas cablagens ou nos bancos pode parar a montagem de um veículo inteiro. A indústria automóvel gosta de falar de robôs, plataformas e eletrificação. Mas, por vezes, não é a tecnologia do futuro que pára uma operação de mil milhões. É uma carga das mais banais, que não saiu do porto a tempo.